Entendendo o requisito P5.2 da VDA 6.3 edição de 2016

  04/12/2020

Nesta sequência de posts sobre a norma VDA 6.3 edição 2016 hoje abordaremos o requisito P5.2 que trata da forma como deve ser comunicado aos fornecedores os requisitos dos clientes. 

 

Analisando com mais cuidado os detalhes da norma e por ter vivido bem de perto todas essas situações dentro de uma montadora, é fácil entender que o foco neste requisito é deixar claro para toda a cadeia de fornecedores os requisitos de produto, processo e de sistemas, garantindo assim que todos estão trabalhando com a versão atual dos documentos exigidos.

 

A VDA 6.3 exige que todo este processo de comunicação dos requisitos ao longo da cadeia de fornecimento deve estar documentado e  ser rastreável, ou seja, deve existir uma forma clara e inequívoca da empresa avaliar em um momento futuro todo o fluxo deste processo através de evidências objetivas que comprovem a eficácia deste processo, incluindo um registro da data de quando a modificação foi implementada.

 

É fácil entender a preocupação da norma com este requisito, pois a construção de um veículo pode envolver mais de 500 fornecedores e mais de quatro mil peças, e toda especificação (desenhos, normas, prazos, milestones do projeto, etc.) deve fluir ao longo da cadeia de suprimentos de forma rápida e confiável para evitar que produtos sejam produzidos diferentemente daquilo que foi especificado, que prazos não sejam cumpridos e com isso gerar atrasos ou outros percalços às partes interessadas.

 

No procedimento requerido pela VDA 6.3 é necessário que sejam abordadas três situações, que são:

 

a)     Desenvolvimento de um novo produto: Neste caso a empresa deve definir qual o caminho percorrido pela informação recebida do cliente, desde o momento em que os documentos são recebidos, até o término do processo, momento este em que a informação é repassada aos seus fornecedores (tier 2). Toda informação relevante para o atendimento dos requisitos especificados deve, quando necessário, ser repassado de forma documentada aos envolvidos. 

b)    Modificação de um produto existente: Numa montadora de veículos é rotineiro o processo de modificações de produto, quer seja para correção de problemas, para a melhoria de desempenho, redução de custos, melhoria nos produtos, etc. Em função de toda esta complexidade, nas montadoras existem áreas gigantes, com um número grande de especialistas, sistemas interligados e processos bem definidos e estruturados que controlam de forma rígida as modificações de produto.

c)     Informações relevantes dos clientes, que não estejam relacionadas a produtos, mas outros pontos importantes do processo de produção. Neste ponto abordamos requisitos que não estejam relacionados diretamente do produto, mas sim a sistemas de gestão que possam de alguma forma impactar o negócio das partes interessadas. Estes requisitos na maioria das vezes se tornam os vilões de uma auditoria, pois na maioria das vezes não está previsto no sistema de gestão da qualidade dos fornecedores alguma função que tenha coo obrigatoriedade fazer uma análise crítica de toda a documentação recebida dos fornecedores.

 

Tendo como base os cenários descritos acima, o desdobramento/comunicação ao longo da cadeia de fornecimento dos requisitos específicos dos clientes deve ser a porta de entrada do desenvolvimento de qualquer tipo de modificação, seja em produto, processo ou algum requisito do sistema de gestão da organização.

 

Neste meu tempo trabalhando com empresas do setor automotivo, já presenciei inúmeros problemas causados por falhas no processo de comunicação destes requisitos, ora causados pelos clientes, mas na grande maioria das vezes provocados pela falha dos fornecedores em analisar criteriosamente os documentos antes de enviar a proposta comercial aos clientes.

 

Para aquelas empresas certificadas pela norma IATF 16949, este requisito da VDA 6.3 está praticamente garantido através do atendimento do requisito “7.5.3.2.2. Especificações de Engenharia” onde os requisitos a serem seguidos estão definidos.

Em uma auditoria do requisito P5.2 provavelmente a abordagem utilizada pela equipe de auditores será escolher alguns pedidos de desenvolvimento, modificação de produtos e outros requisitos específicos e a partir daí analisar criticamente os procedimentos para verificar se todos os requisitos da norma e os requisitos específicos dos clientes estão nele inseridos e posteriormente a análise dos procedimentos, solicitar as evidências para comprovar a aderência.

 

Problemas comuns encontrados estas auditorias estão relacionados a utilização de desenhos desatualizados, normas obsoletas e requisitos específicos de sistemas de gestão não desdobrados aos fornecedores, podendo estas falhas causar erros que comprometam a qualidade, segurança e os custos para clientes e até mesmo para os os fornecedores, em função da necessidade de reposição de peças, seleção, etc.

 

Analisando os requisitos específicos das empresas com relação a este item, no caso da VW automóveis e das empresas do grupo Traton (MAN E Scania), podemos citar:

 

a)     o requisito adicional que trata da nomeação de uma pessoa dentro de cada planta fornecedora (tier 2) responsável pela segurança do produto. Algumas empresas deixam de cumprir este requisito, em função da mesma não produzir produtos que sejam classificados como itens de segurança, mas este entendimento está errado. Todos os fornecedores da cadeia, devem, independente do tipo ou da categoria de produtos que fornecem, definir a pessoa responsável pela segurança do mesmo. Este requisito aplica-se tanto a VW automóveis quanto as empresas do grupo Traton.

 

Outro ponto polêmico com relação a este requisito adicional, diz respeito ao treinamento requerido para esta nomeação, e o meu entendimento sobre isto é que para os fornecedores tier 2 também deve ser cobrado o treinamento, no entanto,  há uma definição interna dos auditores da VW de que este treinamento não seja cobrado dos fornecedores (tier 2), apenas dos fornecedores (tier 1), porém não há nenhum documento oficial do grupo VW que oficialize esta situação, por isso valide este tema diretamente com o responsável pela auditoria do grupo VW, visto que, caso seja requerido de forma oficial a realização deste treinamento, a VW exige que o mesmo seja executado apenas pelo IQA – Instituto de Qualidade Automotiva, não sendo aceitos treinamentos executados por outras empresas, mas como foi dito, discuta este ponto com o cliente (VW Automóveis, SCANIA E VW Caminhões) para ajuste dos detalhes e caso seja possível oficialize a solicitação de uma derroga por parte do cliente da obrigatoriedade de fazer o curso apenas o IQA, desde que você conheça ou tenha uma proposta de uma empresa idônea que seja competente no assunto e mais competitiva em termos de preços

 

A sugestão para implementação deste requisito especial é que cada fornecedor (tier 1) defina um padrão de carta de nomeação de responsável pela segurança e peças aos seus fornecedores (tier 2) que a preencham, assinem e devolvam para arquivamento, quando requerido pelo cliente, com uma cópia do treinamento realizado. É importante que haja uma previsão nos documentos do sistema de qualidade dos fornecedores (tier 1 e tier 2) que esta carta seja renovada anualmente, evitando assim não conformidades durante as auditorias. Crie uma lista mestra (máster list) onde contenha o nome da empresa, o número e descrição do produto fornecido, o nome da pessoa responsável pela segurança do produto e a data da nomeação, sendo que com esta data você pode criar um mecanismo de validar periodicamente estes nomes juntos aos clientes.

 

b)    O requisito adicional que trata da obrigatoriedade para as empresas que fornecem produtos de segurança ou legislação de realizar anualmente uma auditoria D/TLD, conforme Capítulo 7 da Fórmula Q-Concreta, sendo que nestes casos, a data da última auditoria D/TLD deve ser documentada quando da submissão para aprovação das amostras iniciais (sistema BeOn). O tempo máximo entre as auditorias não pode ultrapassar doze meses, e toda e qualquer não conformidade identificada durante esta auditoria deverá ser documentada e informada imediatamente aos clientes. Este requisito aplica-se tanto a VW automóveis quanto as empresas do grupo Traton.

 

 

c)     O terceiro requisito adicional também diz respeito a produtos de segurança e envolve o tempo de arquivamento, sendo que o tempo mínimo requerido pelas montadoras citadas é de quinze anos a partir do momento da produção, e estas evidências não envolvem apenas registros de inspeção ou testes, mas sim toda e qualquer documentação,  como por exemplo: desenhos, liberação de produção, relatórios de amostra inicial e outros registros de qualidade que poderão ser solicitados como evidência ou utilizados como atenuante num eventual processo. Este requisito aplica-se tanto a VW automóveis quanto as empresas do grupo Traton.

 

 

d)    Requisito adicional relacionado ao sistema de gestão de qualidade do fornecedor: Estou incluindo este tema aqui também, embora o tenha detalhado no requisito P5.1, pois acredito que o desdobramento deste requisito a toda a cadeia de fornecimento deve seguir as diretrizes do item P5.2 e neste caso há duas situações distintas.

 

o   No primeiro caso, vamos falar da VW Automóveis, que hoje exige de seus subfornecedores, apenas a certificação ISO 9001 e como dito em outro post a necessidade de organizar o sistema de gestão ambiental com base nos requisitos da ISO 14001, porém neste caso de gestão ambiental não há a exigência de certificação para os subfornecedores, então a sugestão é contatar o responsável pela auditoria de fornecedores do grupo VW e questionar se a obrigatoriedade deste desdobramento a toda a cadeia de fornecimento da adequação aos requisitos da ISO 14001 ainda continua válida visto que a carta emitida pelo grupo é datada do ano de 2011, como pude comprovar numa visita a um fornecedor que a recebeu.

 

o   No caso das empresas do grupo Traton (Scania e VW Caminhões) que seguem as diretrizes do documento CVS-10, é requerido que os subfornecedores sejam certificados IATF 16949. A maioria dos fornecedores (tier 1) não tem toda a sua cadeia de fornecedores certificada na IATF 16949, por isso é importante que uma derroga seja solicitada aos clientes para evitar problemas com as auditorias de certificações de sistemas de qualidade e auditorias de processo das empresas do grupo VW, e um trabalho de desenvolvimento da cadeia para atender a este requisito deve ser iniciado de imediato, pois eu não acredito que esta derroga tenha uma duração muito grande, ou seja, superior a 2 anos por parte dos clientes. Com relação à certificação no sistema de gestão ambiental, tanto a VW Caminhões quanto a Scania cobram de seus fornecedores diretos (tier 1) a certificação, porém não há menção no CVS-10 da necessidade de toda a cadeia de fornecimento também estar certificada nesta norma.

 

Este requisito do Capítulo 5 da VDA 6.3 é extremamente complexo e requer por parte dos fornecedores tier 1 uma análise detalhada não somente dos documentos técnicos, mas também de toda a documentação de suporte, como por exemplo o Manual da Fórmula Q-Concreta e o CVS-10. A experiência tem demonstrado que boa parte das não conformidades e dos mal entendidos com relação a estes itens sejam facilmente resolvidos, se a pessoa responsável pelo sistema de gestão da qualidade do fornecedor realizar uma análise crítica de cada item destes manuais e com base nisto elaborar um plano de adequação para aquilo que não está implementado ou implementado de forma incorreta.

 

Espero ter contribuído um pouco para um maior entendimento deste requisito da norma e fico no aguardo dos comentários por parte de todos.

 

Antônio Andrade

Mestre em Engenharia Mecânica, professor universitário e especialista em sistemas de gestão da qualidade.


Voltar

Fale Conosco

Como podemos te ajudar?
contato@visioncg.com.br
(11) 93228 - 9381


Saiba mais
Logo ABT Log

CONTINUE NAVEGANDO

Sobre
Produtos
Treinamentos
Blog
Contato

CONTATE-NOS

+55 (11) 93228 - 9381

contato@visioncg.com.br

Copyrights © Vision Consulting. Todos os direitos reservados. Desenvolvido por Mpsoft Política de Privacidade | Termos de Uso